Cultura

Cemitério da Consolação: arte e história imortais

ARTIGO
Cemitério da Consolação: arte e história imortais
por Eliana Queiroz

Temos no centro de São Paulo inúmeros prédios e monumentos que podem explicar muitas passagens históricas da cidade. A Faculdade de Direito do largo São Francisco, por exemplo, conserva a memória das aventuras de jovens acadêmicos que para São Paulo se dirigiram desde a primeira metade do século XIX, buscando conhecimento e status para fazer parte da elite política dirigente do país.

O Teatro Municipal revela a influência da arquitetura neoclássica e do mundo musical europeu na sociedade paulistana na primeira década do século XX, a ponto de o prefeito Antonio Prado mandar construir este imponente edifício como prova de modernidade da cidade.
Assim como este prédios revelam momentos interessantes da urbe moderna na qual vivemos hoje, temos infinitos outros espalhados pelos logradouros que cumprem o mesmo papel histórico: O edifício Martinelli, o Vale do Anhangabaú, a sede da secretaria estadual da educação – antigo colégio Caetano de Campos, a Praça da República com seus chafarizes e coreto, o Jardim e a estação da Luz, os Viadutos do Chá e Santa Efigênia, para citar apenas os mais conhecidos.

Temos também os monumentos espalhados pelas praças públicas, muitas vezes despercebidos pelos transeuntes apressados, que não se detêm na observação dos detalhes destas miríficas esculturas. Este é o caso do Monumento a Olavo Bilac, denominado “o Ilídio” ou “o beijo”, bem em frente a faculdade de Direito, da estatua de Dante Alighieri escondida na Praça Dom José Gaspar, ou mesmo da Ladeira da Memória ao lado da Estação Anhangabaú do metro.
Imagine o seguinte: se estas esculturas não são percebidas, o que dizer do acervo existente no cemitério mais antigo de São Paulo – o Cemitério da Consolação?
Parece incrível, mas para aqueles que desejam conhecer o passado de São Paulo este é um passeio bastante interessante. Lá encontramos mausoléus ricamente ornamentados com esculturas em bronze, granito ou mármore Carrara e altura superior aos 3 metros.

E Isto é só o começo, pois o cemitério localiza-se na mancha urbana central onde também está a maior parte dos prédios já citados acima, que compõem o Patrimônio Histórico de São Paulo, e de fato faz parte deste patrimônio.
Para entender sua importância histórica cabe recorrer ao passado. Ele foi edificado na metade do século XIX por uma exigência da Câmara Municipal e de médicos sanitaristas, como Líbero Badaró, que desejavam acabar com as praticas insalubres de sepultamento nas igrejas. Assim a partir de agosto de 1858 a cidade ganha o primeiro Cemitério Municipal, localizado nos arrabaldes da cidade, note que a região da Consolação era considerada periférica e distante do centro urbano.
A partir da década de 1870 a cidade passa por uma nova fase de desenvolvimento. A modernização se avizinhava com rapidez, transformando drasticamente o visual e os costumes provincianos de uma população pouco numerosa que passa a crescer aceleradamente e ao mesmo tempo acumula capital.
A fonte destas mudanças radicais é o café cultivado no Vale do Paraíba e no oeste paulista para ser exportado aos mercados europeus, tão ávidos desta bebida estimulante.

A demanda pelo café era grande e os lucros da venda também, o que propiciou a entrada do Brasil, e de São Paulo em particular, na rota do capitalismo industrial.
Os novos tempos impunham a modernização e a modernidade, o que significava adoção dos modelos europeus de urbanização, moda, culinária, música, artes plásticas, literatura, arquitetura, em suma tudo deveria parecer europeu.
Com este panorama podemos entender as condições materiais da sociedade emergente que sepulta seus entes queridos no cemitério da Consolação a partir da entrada do século XX, até mesmo na hora do enterro, da despedida eles desejam ser modernos, cosmopolitas e estes anseios seriam refletidos muito claramente na construção e ornamentação dos túmulos e mausoléus, muitas vezes monumentais.
A lógica da civilidade europeia que imperava durante a vida e também prevalecia após a morte. Esta é a explicação para que a morada eterna da elite fosse imponente e gravasse no imaginário da população a importância daquele que falecera.
Nas palavras de Gustave Le Bon, um dos fundadores da psicologia de massas, temos a explicação exata do significado das obras de arte nos túmulos:

… “Não são os fatos em si que ferem a imaginação coletiva, mas sim o modo pelo qual se lhes apresentam. Os monumentos e as comemorações são, sem dúvida, os meios mais proveitosos, práticos e seguros, para gravar no espírito do povo as proezas de um herói, a grandeza de um nome ou a importância e o significado de um acontecimento.”

Neste contexto podemos compreender a chegada de tantos artistas, escultores e construtores europeus, em sua maioria da Itália para trabalhar, pois esta cidade era mesmo um paraíso para estes profissionais. Suas técnicas eram relativamente novas para os brasileiros e os estilos artísticos por eles utilizados eram muito apreciados pela elite que precisava de arquitetos, engenheiros, decoradores, estilistas, sanitaristas, etc.
Desta forma não só o afluxo de imigrantes vindos da Europa aumentou, como também aumentou o número de jovens brasileiros que se encaminhavam aos ateliês europeus para dominar as técnicas e os conhecimentos agora valorizados no Brasil que enriqueciam e tornava conhecidos os artistas estrangeiros que aqui desembarcavam.

Escultores como Victor Brecheret, Galileo Emendabili, Bruno Giorgi, Wilian Zadig, Nocola Rollo, Rodolfo Bernardelli, Celso Antonio de Meneses ente muitos outros fazem parte deste momento histórico. Aceitam as encomendas dos barões do café, de políticos, artistas, industriais e toda a sorte de famílias abastadas residentes na capital, e criaram verdadeiros conjuntos escultóricos para ornamentar os túmulos e povoar o imaginário dos visitantes da necrópole sobre a importância dos falecidos.

Dentre as obras mais imponentes existentes no cemitério da Consolação podemos citar algumas:

“O SEPULTAMENTO” – obra de Victor Brecheret, datada de 1923. Cabe lembrar que este conjunto representa o lamento e a despedida das 3 Marias, que ao pé do túmulo chorama a morte de Jesus. Por esta belíssima escultura, toda em granito, com traços retos e relevo pouco acentuado o escultor foi premiado no Salão de Outono, também no ano de 1923.

“SOLITUDO”– Escultura de Francisco Leopoldo e Silva, Autor do primeiro nu feminino, colocado em 1922 na necrópole da Consolação, onde se encontra a provocante mulher em êxtase, envolta num véu translúcido que mais realça suas formas exuberantes, seminudez mais forte porque é sugerida e não mostrada.
LENDA GREGA – Escultura de Nicolla Rollo onde que representa a tragédia de Orfeu, o deus grego do sonho e da ninfa Eurídice, com era casado. A cena mostra Orfeu tangendo a sua lira, com a qual encantava os animais e as plantas, tentando trazer à vida a esposa, em vão.

Poderíamos listar aqui inúmeras esculturas, suas características físicas, estilo de seus criadores, momento histórico, enfim, poderíamos discorrer sobre uma série de fatos curiosos, inusitados que perpassam por estas obras de arte, entretanto não o faremos pelo limite de espaço, mas principalmente para fazer deste pequeno texto um convite aqueles que se interessam ou se interessaram pelo tema, á percorrer as ruas e alamedas do cemitério da Consolação. E acreditem, nem só de tristeza e de saudade se faz um cemitério, pois a história e arte que concentram são imortais.

 

Texto de Eliana Queiroz – Historiadora

Publicado originalmente em www.partes.com.br/especial_sp_450/artetumular.htm

 

 

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